Relatório anual passa a ser obrigatório a partir de 2023. Instituições estabelecem metas de financiamento a negócios sustentáveis

Em setembro de 2021, o Banco Central (BC) e o Conselho Monetário Nacional (CMN) publicaram um conjunto de normas para instituições financeiras em relação à agenda ESG. Em resumo, ampliaram exigências que já existiam e reforçaram regras para divulgação de informações e mapeamento de riscos com um enfoque maior e mais detalhado para as questões climáticas.

Passou a ser pedido, por exemplo, a realização de teste de estresse climático para avaliar hipóteses de mudanças de clima e de transição para uma economia de baixo carbono. Também será obrigatória, a partir de 2023, a divulgação anual do Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas, chamado de GRSAC. Outras normas entram em vigor já neste mês.

Segundo Marcelo Pasquini, líder de sustentabilidade do Bradesco, tem sido “natural” adotar as recomendações do BC. No momento, a instituição está rodando três pilotos para a mensuração de riscos climáticos físicos e de transição e a agregação deles aos demais riscos. Um dos principais desafios, diz, está nas análises de cenários a partir dos testes de estresse climático, que são de muito longo prazo e não são, geralmente, feitas de forma tão detalhada para o Brasil.

Em 2019, o Bradesco fez o primeiro estudo de emissões de gases efeito estufa de sua carteira de crédito, com foco em setores como agropecuária, imobiliário e veículos. Em 2020, foi o primeiro do setor no Brasil a aderir à Partnership for Carbon Accounting Financials (PCAF), parceria global entre instituições financeiras para desenvolver e implementar padrões de mensuração e divulgação de emissões associadas a empréstimos e investimentos.

Com base na metodologia da PCAF, o banco publicou pela primeira vez, em 2020, o cálculo das emissões financiadas, com classificação setorial em sua base de dados, cobrindo 92% da carteira de crédito pessoa jurídica (PJ) ano passado, conforme informações do relatório integrado de 2021. Foram identificados os setores mais emissores e os que podem ter maior transformação.

Aliança Global

Com o objetivo de descarbonizar seu portfólio até 2050, no ano passado, o banco aderiu ao Net-Zero Banking Alliance, aliança que reúne 113 bancos de mais de 40 países — lista que inclui Santander e Itaú. Também definiu a meta de direcionar R$ 250 bilhões, até 2025, para financiar setores e ativos de impacto socioambiental positivo. Até março deste ano, 43% do volume total já haviam sido destinados para negócios sustentáveis.

O Santander é outro “bancão” que está se mexendo para se adequar às novas exigências da economia verde. Desde 2020, a instituição inclui em suas avaliações socioambientais a exposição dos clientes ao estresse hídrico e sua dependência desse recurso, por meio de uma ferramenta própria que considera três aspectos: qualidade dos processos de gestão da água, vulnerabilidade da atividade econômica e a região onde o negócio está.

Christopher Wells, superintendente executivo de risco socioambiental do Santander, diz que o banco realiza cerca de 2 mil análises socioambientais, por ano, incluindo negócios com operações na Amazônia, produtores de soja e processadores de carne bovina. Para Wells, um dos maiores desafios das normas do BC é o acesso a dados.

— E se chover pouco nos próximos três anos, como ficaria a geração de energia hidrelétrica, por exemplo? É um cenário hipotético. Não existe nenhum modelo de ‘think thank’ ou órgão de governo para ajudar os bancos e as empresas — analisa.

Na temática social, existe também uma dificuldade em relação a dados.

—Tem lista para [empresas que utilizam] trabalho escravo, mas não tem para outros temas, como trabalho infantil ou assédio. Então, o que fizemos? Modernizamos o questionário enviado para os clientes — conta Maria Silvia Zanardi, superintendente de risco socioambiental do Santander.

O ABC Brasil acaba de publicar seu primeiro relatório de sustentabilidade que inclui análise setorial da carteira de crédito. Em torno de 23% dela estão focadas em agronegócio que, por si só, é inerente a riscos climáticos. Foi montado um time multidisciplinar socioambiental para entender quais ajustes de sistemas e bases de dados terão de ser feitos. Neste ano, o banco vai mapear as emissões de gases de efeito estufa financiadas, para divulgá-las em 2023. O banco prevê implementar diretrizes para setores mais expostos a questões climáticas.

— Não estamos falando em proibição. Não é excluir, e sim trazer para o jogo e entender como podemos ajudar os clientes — afirma Antonio Ferrari, líder de sustentabilidade e risco socioambiental do ABC.

Agenda ESG ganha corpo no setor

Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Prática ESG, com as novas regras publicadas em 2021, o Banco Central avança em uma agenda de sustentabilidade que ganha corpo nos últimos anos no mundo financeiro global.

— Elas são reflexos do avanço e da compreensão do setor financeiro sobre temas sociais, ambientais e climáticos. Na prática, a gente sai de uma discussão abstrata para algo mais concreto, do como fazer, como medir — diz a professora Annelise Vendramini, coordenadora do programa de finanças sustentáveis no Centro de Estudos em Sustentabilidade (FGVces), associado à Escola de Administração da Fundação Getulio Vargas.

Uma das novidades é a separação das dimensões sociais e ambientais, e a inclusão do risco climático — físico e de transição — entre os que devem ser monitorados pelos bancos, junto com os riscos tradicionais, como os de crédito, liquidez e de mercado.

— É uma resolução mais aprofundada, que dá a extensão de cada risco e traz uma lista não exaustiva de exemplos de riscos sociais, ambientais e climáticos — avalia Guilherme Piffer, sócio e diretor de finanças sustentáveis da consultoria Resultante.

O papel dos bancos daqui para frente é incorporar tudo isso ao que já avaliavam antes, olhando para eles de forma sistêmica, observa Ana Luci Grizzi, advogada especialista em direito ambiental, para quem as normas foram feitas “de forma didática e coerente”, respeitando os riscos proporcionais ao tamanho das instituições e de suas operações.

As novas regras pedem um esforço do setor bancário para processos internos, aponta Amaury Martins de Oliva, diretor de autorregulação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban):

— Foi um passo importante e reforça a importância da agenda que já vinha sendo trabalhada. Todos estão trabalhando para a implementação, desenhando como elaborar testes de estresse climáticos, qual metodologia usar, como implementar políticas de riscos climáticos de crédito e liquidez e como fazer o diálogo entre áreas e diretorias.

O executivo lembra que, em 2018, a Febraban preparou espécie de mapa para as instituições financeiras implementarem as recomendações da Força-Tarefa para Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD, na sigla em inglês), estabelecida pelo Conselho de Estabilidade Financeira.

Criada em 2015, a TCFD conta atualmente com mais de 3,4 mil apoiadores de 95 países ao redor do mundo, incluindo mais de 1,3 mil empresas do setor financeiro que, juntas, são responsáveis por US$ 215,6 trilhões em total de ativos. Ao todo, o Brasil contabiliza mais de 40 signatários, entre eles, alguns dos maiores bancos, como Bradesco, Banco do Brasil (BB), Itaú, BTG Pactual, além do próprio Banco Central e da Febraban.

Ainda segundo Oliva, mais de dez bancos associados à entidade já se comprometeram com neutralidade de emissões da carteira e emissões próprias e aderiram a compromissos da ONU.

FONTE: https://oglobo.globo.com

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